• juliana rabelo

Capitulo 5: Elas e o rio

FLOR

Ela se deixou encantar.

E eu finalmente cheguei à Terra.

Crescia, em silêncio e discretamente, no seu interior.

Mas subitamente o rio o chamou para outro lugar. Ele era um filho do rio: sempre em movimento, sempre em transformação, nunca imóvel. O rio chamava e ele ia.

O aviso inevitável e tardio da minha chegada, como pequena semente, foi dado a ele por rádio. Eu só posso imaginar o que a minha mãe sentiu neste momento. Como dizer pela primeira vez a um homem que ele será pai, sem o olhar nos olhos? E com o operador de rádio ouvindo?

Ele não pareceu muito feliz com a notícia.

Ele se rebelou.

- Como você pode ter sido assim tão descuidada?

Sim, os homens ainda argumentam este tipo de coisa.

Nala é corajosa.

Então ela insistiu.

Foi atrás de Jackson mais uma vez, para poder agora olhar nos seus olhos e ver a resposta. Ela não foi em segredo. Avisou Jackson que iria, pegou o seu endereço e juntos combinaram de se encontrar.

Existia amor e uma história ali, e as coisas não podiam simplesmente terminar assim.

Nala pegou um ônibus até uma cidadezinha nas brenhas da Bahia, onde o motorista não queria deixá-la descer sozinha. Jackson deveria estar esperando por ela na parada, como combinado, mas ele não estava lá. Às duas horas da manhã, na beira da estrada, escuro como o breu, havia apenas uma parada vazia.

Teimosa e obstinada, Nala desceu mesmo assim.

Ela então peregrinou de porta em porta durante a madrugada, perguntando se alguém o conhecia ou havia visto alguma pessoa com a descrição dele. Por pura sorte, descobriu uma dona de pousada que sabia a fazenda onde Jackson estava trabalhando.

Pela manhã, Nala esperou pacientemente embaixo de uma árvore na entrada da fazenda até que ele chegasse. Ela era inocente. Ela não estava com medo. Ela estava em êxtase. Eu a completei. Eu a conectei com a terra e a vida. Ela acreditava que ele também se sentiria assim, bastava o primeiro susto passar.

Neste momento ela ainda não havia entendido.

Até que ele chegou para trabalhar.

Ela registrou lentamente a surpresa inexplicável dele ao vê-la.

- O que você esta fazendo aqui?

- Você pediu que eu viesse.

- Sim. Mas não achei que você viria. E que se você viesse, e visse que eu não estava na parada, entenderia porque, e iria simplesmente embora.

Agora ela entendeu.

Nós duas voltamos sozinhas para a beira do rio. Sozinhas e unidas. Agora eu era só dela. E ela era só minha. E haveríamos de conseguir, mesmo sem um pai.

As mulheres estão sempre preparadas para serem mães. Pode até haver um medo inicial, mas ele se dissipa rapidamente e dá lugar à certeza do amor incondicional por aquele que você carrega em si.

Eu fui mãe aos 19 anos, sei o que estou falando.

Imagino que os homens não sejam assim. Alguns homens simplesmente se chocam ao saber que serão pais. E entram em pânico. E vão embora sem nunca olhar para trás. Imagino que ele tenha sido um desses.

Não tive a chance de perguntar.

Ele morreu em algum momento entre o dia em que deixou Nala e os meus quarenta anos.


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