• juliana rabelo

capitulo 2: elas e o rio

Nem todas as pequenas capelas dos Angicos foram capazes de garantir vida longa ao rei.

José Alves morreu cedo, deixando Francisca Bernarda, doente e com os cinco filhos pequenos para criar. Mãe Cida amava o pai e sofreu.

E o reino precisava de um novo rei.

Foi então, na busca por um novo rei e um pouco de aconchego, que Francisca Bernarda, minha bisavó, contrariando toda a família, se casou de novo.

Desta vez ela podia escolher e decidiu por um moço aventureiro, muitos anos mais jovem do que ela. O casamento durou pouco, pois ela faleceu logo depois. O jovem ficou com a sua parte de direito pelo casamento, se apossou dela e foi embora desta história.

Já os cinco filhos ficaram morando juntos na casa grande dos Angicos. A metade que lhes cabia seria dividida em cinco partes, conforme os irmãos crescessem. As moças ficaram oficialmente com a parte da casa grande, onde moravam desde o nascimento. As princesas Ana e Cida ainda tinham ainda um belo reinado. Até porque não é preciso muito para ser da realeza numa terra em que a maioria das pessoas tem como posse máxima a roupa que está usando, o sol sob a sua cabeça e o chão imediatamente abaixo dos seus pés.

Ana, a mais velha e rainha precoce do reinado, já estava em idade prematura de pensar em casamento e filhos.

A verdade é que ela era apenas uma menina de 15 anos. Minhas netas vão ficar enlouquecidas de raiva com a responsabilidade que foi colocada sob esta pobre criança. Sim, não é justo. Você deve ter 15 anos e estar pensando em quem será o seu primeiro namorado e em quando vai deixar de brincar de boneca escondida, e não preocupada com um casamento bem arranjado e cuidar dos seus irmãos.

Mas o mundo era outro, e Ana não tinha escolha.

Aconteceu então de Ana se casar com um primo legítimo dela e sobrinho de seu pai, também chamado José Alves. E de ter logo um primeiro filho varão, José Alves. Assim mesmo, 3 vezes. Para dar sorte, eu acho. Ou por herança de hábito português, hoje talvez esquecido, de homenagear os patriarcas da família a cada nova geração. Seria esta uma mandinga ancestral para assim se tornar imortal? Não sei se funciona, mas o marido da minha neta, Flor, é de origem portuguesa e eles mantêm a tradição até hoje, revezando entre dois nomes. Alguns rebeldes enfrentam os riscos do destino ao escolherem nomes inéditos aos seus herdeiros. Mas são poucos. Você se arriscaria?

Ao segundo filho escolheram o nome de Francisco, que honrou o nome de santo e se tornou Tio Padre, para a família, e Padre Alves, para o seu rebanho.

Mas acontece que o sertão tem seu ritmo. E seu preço. Ele cria e fortalece os homens. Ele permite que a vida flua e que uma nova geração venha. Mas ele tem sede, e consome a vida na mesma velocidade que gera.

Muito cedo chegou a vez de José Alves (o marido, importante explicar). Pouco mais de 20 anos de idade.

Provavelmente a culpa foi do lundum.

O lundum dos Alves era coisa séria, e foi passado à vários descendentes. Ele fazia com que quem o possuísse tivesse uma tendência à variações bruscas de humor, períodos intensos de silêncio absoluto e uma certa impaciência com as contrariedades da vida.

No caso de José, pobre coitado, era um lundum do tipo brabo. O quarto onde ele atirou em si mesmo, após uma discussão com um cunhado por conta dos seus nove cães de caça, ainda existe na casa grande. E ainda é assombrado. Meus netos se recusam a entrar lá, porque obviamente eles conhecem todas estas histórias. As almas gostam dos Angicos e por ali permanecem de tempos em tempos.

Então, quis o sertão, que Ana aos 18 anos, grávida de Francisco, nova e bonita, se visse viúva. Além disso, sozinha como rainha de um reino com mais quatro irmãos pequenos, que dependiam dela. Ela se desesperou. Como faria?


2 visualizações

©2019 by flor-rabelo. Proudly created with Wix.com