• juliana rabelo

capítulo 5: elas e o rio

FLOR


Eu sempre soube que não tinha pai, o campo em branco na minha certidão assegurava isso. Mas só tomei conhecimento do seu nome e da sua história no meu aniversário de 40 anos.

Não, minha mãe não me escondeu. Eu que não perguntei. Na verdade, eu a proibi de falar neste assunto, por carta, aos sete anos. Porque eu tenho um pai. De novo: chegaremos lá. Espere.

Eu precisei de muito tempo para aceitar que a recusa do meu pai em voltar para casa conosco me machucou de um jeito irreversível e profundo.

Em parte porque eu era muito pequena para me lembrar. Apenas um embrião nadando na minha lagoa particular.

Em parte porque minha mãe se esforçou tanto para que a sua ausência não tivesse significado nenhum para mim.

Em parte porque eu achava injusto, pois eu sempre tive tanto do pai que o rio me deu.

Mas a verdade é que doeu sim.

Ninguém está preparado para não ser amado por um daqueles que lhe deu a vida. Então a dor faz parte de você se tornar invisível. Esta parte diminui muito com o tempo, mas sempre está lá.

Se meu pai, de quem eu herdei a pele morena e o nariz arrebitado, não me amou desde o início e conseguiu ir embora para nunca mais voltar, porque outros homens não haverão de fazer o mesmo? Porque aqueles homens a quem eu dedicarei o meu afeto e amor não irão me abandonar?

E assim, de maneira irracional, intuitiva e profunda, afeto passou a significar abandono. E um pedaço de mim guardou este código, e o ressuscitou em vários trechos da minha história. Mas espere. Chegaremos lá.



Nala tinha certeza que o bebê seria uma menina.

Mulheres sabem quando carregam dentro de si outra mulher. E a menina herdaria a sina do rio: vive, morre, renasce.

Nala superou o abandono do parceiro focando no que havia de positivo.

Ela teria um bebê.

Ela seria mãe.

O bebê seria só dela.

O que era justo, porque não se pode confiar de todo em um pai. Pelo menos ela não confiava no dela, depois de ele a ter abandonado. (Também? Sim. Espere. Chegaremos lá.)

Mas existiam alguns problemas a enfrentar.

Em 1977 não era muito bem visto uma mãe sem um marido.

Não que Nala ligasse para o que a sociedade tradicional nordestina fosse pensar e falar. Há algum tempo ela havia se libertado destas amarras. Até gostava de brincar de chocá-los sempre que possível. A formatura de seu primo em engenharia, onde ela chegou estonteantemente bela e descalça, que o diga. O formando nem ligou. Afinal, quem perde tempo olhando para os pés quando se pode olhar para aquele sorriso?

Nala ligava para Amarílis.

Minha avó estava resistindo bravamente aos anos 70. Imagino que tenha sido difícil para quase todos os pais. Na avenida João de Barros, não era diferente. E com certeza era intenso. Juana havia estabelecido um novo recorde ao largar o 6° ano de medicina e se casar com um rapaz praticamente desconhecido, indo morar em uma nascente comunidade hippie no Rio de Janeiro.

Os patamares eram altos entre seus filhos,

E Amarílis resistia.

Ainda assim, minha mãe sabia que havia de haver limites para Amarílis. Então, ela estava preocupada. Como voltar para Recife com o seu maior tesouro, sem que ele representasse dor para a mulher da sua vida?

Vários planos estavam em construção.

Na família Azevedo as coisas são contadas nas camas dos quartos, quando os primos irmãos se amontoam para falar bribotes e segredos. Então alguns, mais íntimos, sabiam que eu estava a caminho. E eles estavam a confabular alternativas para não machucar a minha avó. Ela nasceu em 1926. Para ela algumas coisas eram simplesmente diferentes.

O que ninguém contava, era com Paulo e seu plano secreto.

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