• juliana rabelo

capítulo 4: elas e o rio

AMARÍLIS


Ana, que já tinha dois filhos Alves, teve então mais dez Azevedos que vingaram. É difícil acreditar, com toda esta fertilidade, mas ela era de saúde frágil e doente, como sua mãe, Francisca Bernarda. Sua filha mais velha, Tia Cora, aos poucos foi assumindo a função de senhora da casa, dos meninos para criar, das terras e das negras.

A casa veio de um reinado lembra? Ela foi herdada por duas princesas.

Durante toda a história que acabei de contar, Mãe Cida estava lá nos Angicos.

Tímida, discreta, contida e doce, Mãe Cida ia levando, vendo a irmã viver e seus sobrinhos crescerem. Na casa grande sempre havia muito que fazer, e muita criança para criar. Ela aceitava o seu destino. Para uns o mundo gira rápido, e há sempre muita cor, alegria e dor. Para outros ele gira devagar, e é mais esperar, contemplar e ajudar.

Então Papai Velho ficou viúvo.

E tio Padre interviu. Não era direito aos olhos de Deus, e não era decente aos olhos dos homens, que um homem viúvo e uma mulher solteira morassem sobre o mesmo teto. Um dos dois teria que sair.

Ou...

Assim, mais uma vez, houve um casamento nos Angicos. Mãe Cida tinha 40 anos. Não tinha mais idade para ter filhos. O corpo tem seu ritmo e o seu tempo havia passado. Mas não existe limite de tempo para conhecer o amor. Ela me disse, repetidas vezes, que a época mais feliz da sua vida começou após o casamento com Papai Velho.

Quando eu cheguei na casa grande dos Angicos eles já eram casados. O amor deles me salvou. Meu avô e minha tia avó.Papai Velho e Mãe Cida.

Meu primeiro amor: Mãe Cida.

A primeira lembrança do seu cheiro, doce e quente. A primeira lembrança da sua voz: alegre e suave nos meus ouvidos. A batida acelerada do seu coração.

Eu na verdade não me lembro deste primeiro encontro. Não no sentido exato. Difícil dizer que um bebê de menos de um ano se lembra de alguma coisa. Mas meu corpo se lembra. Como é possível esquecer o momento em que você conheceu a sua mãe?

Sim, eu tenho uma mãe. Ela também fará parte desta história. Mas não agora.

Agora ela foi separada de mim pela chuva e por um rio. Um rio móvel, que vive, morre e renasce, conforme a terra e a chuva desejam. Desejaram elas que o rio vivesse justo no momento em que ele separaria a minha mãe de mim. Então a minha mãe ficou de um lado do rio, e eu, do outro.

Doeu sim. Existe um vazio no meu peito que me acompanhou durante toda a vida por conta deste rio.

Mas eu não só perdi.

Eu ganhei. Eu ganhei Mãe Cida.


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