• juliana rabelo

Capítulo 4: Elas e o Rio

AMARÍLIS

Do outro lado da história, pelas brenhas da Paraíba, andava um juiz de paz, difundindo a lei e a ordem, chamado Severino Lemos Cezar Azevedo. Ilustre filho do primeiro doutor advogado da Paraíba, Severino até herdou o gosto pelas leis e pela literatura, mas não seguiu exatamente os passos do pai, nunca obtendo um diploma.

Em suas andanças, alguns anos antes da viuvez inesperada de Ana, aconteceu de ele chegar em Emas.

Era dia de São João.

A pequena cidade, quase uma aldeia, estava em festa. Apesar do calor e da falta de chuva daquele ano, a seca ainda não tinha se instalado de vez. Ainda havia alegria e esperança, fitas de todas as cores, fogueira e doces.



Foi quando Severino vislumbrou Ana, iluminada pelo fogo, e ela fisgou-lhe. Mas ainda era menina moça. Nova demais para entender o pobre coração fisgado. E, principalmente, nova demais para que ele pudesse lhe pedir a mão ao pai (que aquela altura já estava morto, mas o pobre Severino não sabia). Então Severino silenciou sobre o seu desejo e pôs-se a andar de novo.

Algum tempo depois, Severino voltou por aquelas bandas e procurou pela moça em flor, preparado para fazer um pedido de casamento. Para desgosto do seu coração, nos Angicos o tempo devia ter passado numa ligeireza maior que no resto do sertão, pois a moça já estava casada e com filho. Com dor, Severino fez o que sabia fazer: pôs-se a andar de novo.

Mas quis o destino que após mais algumas giradas do globo ele voltasse à fazenda, agora sem nenhuma pretensão casadoira. Dessa vez, para a sua surpresa, a moça em flor, transformada em jovem mulher, estava viúva há apenas um mês. Severino não esperou mais. Não esperou o luto oficial acabar. Ele tinha esperado demais e sabia que para a sorte havia um limite.

Num acesso de coragem a lá Florentino Ariza, pediu Ana em casamento. Nada tão radical como Florentino, afinal o velório já havia acontecido e o marido já estava enterrado. Talvez por ser um pouco mais prudente do que este, teve mais sorte, não sendo escorraçado aos gritos pela moça. Ela aceitou. Mas com uma condição, porque era mulher corajosa, paraibana e de muito respeito:

- Espere por um ano, volte e eu me caso com você.

Paciente, Severino esperou de novo, agora com uma promessa e muitos planos - da parte dele, é claro.

Um ano depois, houve um casamento nos Angicos. A família, com seus filhos e agregados, tinha um novo patriarca. Severino se tornou Papai Velho.



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