• juliana rabelo

Capítulo 3: Elas e o rio

Nala ama o sol e a lua.

Ama caminhar antes do sol nascer, enquanto a areia da estrada ainda permite ver as pegadas dos passarinhos.

Ama passar a noite em claro olhando a lua.

Ama entrar no rio e se transformar em uma folha, dominada pela sua força e sua correnteza.

Ama o silêncio que a invade dentro da água, como no útero.

Nala também ama as crianças de pés descalços e barrigas d'água, que possuem apenas duas roupas: a que está no corpo e a que está lavando na beira do rio, deixada para secar ao sol em uma pedra.

Seria este amor derivado da experiência de Amarílis nos Angicos? Da forma como o menino que morreu sem nome marcou a sua mãe? Elos de amor e responsabilidade que unem as mulheres de diferentes gerações?

Ela estava feliz.

Vivia em comunhão com a natureza.

Exercia a medicina como ela achava que devia ser.

Ela gostava de passar os dias, e às vezes as noites, em comunidades perdidas onde a comida era pouca e rara, e que ainda assim seria dividida com a doutora quando ela lá chegasse, afinal alguém os tinha, finalmente, visto. Às vezes era um pacote de bolacha para uma família de seis filhos, às vezes era um caldo de cobra, que eles dividiam como um tesouro raro e irrecusável.

Isso é o Brasil.

Mas tudo ia mudar.

Eu queria chegar.

Estava ansiosa.

Sempre fui.

Acho que minha mãe compreendia que estava na hora de ser minha mãe.

Na verdade ela desejava.

A maternidade faz parte de Nala como a água.

Pergunte a qualquer um que a conhece.

Então nós duas esperamos na beira do rio.

Até que um dia chegou Jackson.

Ele chegou inesperadamente para ocupar a mesa ao lado. Falante, animado, galanteador. Nala, que sempre preferiu o silêncio e a introspecção, transferiu sua mesa para debaixo da árvore mais próxima. Simples assim.

Mas eu queria vir lembra? Estava esperando. E devo ter achado que aquele era o momento. Devo ter intercedido para que Nala, aos poucos, cedesse aos encantos do belo moreno. Sempre gostei de brincar de cupido. Então tenho certeza que houve meu dedo nesta história. Não poderia ser diferente, afinal é a minha história.

Então, aos poucos, Nala cedeu.

Até que eles não eram tão diferentes assim.

Houve passeios de barco no rio e trabalho nas estradas de terra. Festas de todos os santos. Um beijo roubado entre um arrasta-pé e outro. Ele dançava, ela sorria. Ela cuidava das pessoas. Ele da terra e das plantas. Ela meditava. Ele desenhava.

Numa dado momento houve uma briga por qualquer razão que hoje já se perdeu e não tem importância nenhuma. O que importa é o que veio depois.

Uma carta deixada na porta dele por Nala, com uma música de Caetano Veloso (Da Maior Importância), antes de ela partir – com raiva – para Recife. Como resposta, um telegrama breve e eficaz de Jackson: "Volte". Nala voltou.

Eles passaram a morar juntos.

Tudo ia bem.

Ela estava apaixonada novamente.

Ele era leve, bem humorado, brincalhão. Tinha uma alma livre, de cigano, de artista. Muitos anos depois, ela me confessou que nunca havia se apaixonado por um homem tão bonito.

Até onde aquele romance iria? Nala não tinha a menor ideia. Suas experiências com amores não eram muito boas... A única vez que se deixou apaixonar terminou com um vazio enorme no peito e um pote cheio de cartas. Ainda carregava cicatrizes desta história.

Ele percebeu sua relutância e suas dores, e insistiu.

Ela se deixou encantar.

E eu finalmente cheguei à Terra.


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