• juliana rabelo

Capítulo 3: Elas e o rio

FLOR


O convidado original para atender ao telegrama era Theo. Mas acontece que ele seguia outra estrada, casado com Eva e no processo de gerar Paulinho e Chuca. Ele já estava um pouco mais recluso e avesso a aventuras loucas, após uma experiência especialmente traumática em uma prisão politica no Recife. Falaremos mais sobre isso depois.

No entanto, ele intuía quem atenderia ao chamado.

Quem seria médica, e louca, o suficiente?

Ele sabia. Nala.

Ela tinha a coragem necessária para largar a civilização e comodidade em Recife, e trabalhar em uma organização que cuidava da população ribeirinha carente do Velho Chico.

Como esperado pelo seu querido amigo, Nala largou a residência, fez um voto de pobreza em homenagem a São Francisco e Santa Clara, e atendeu ao telegrama.

“Louco original indisponível. Mas temos substituto habilitado. Favor mandar as passagens imediatamente.”

E assim, Nala procurou o rio.

É claro que procuraria.

Como Amarílis, ela sabia que o rio seria capaz de a separar de um amor, e lhe dar outro.

Viver, morrer e renascer.

Mas Nala é diferente, ela veio de outro mundo lembra?

O amor que ela procurava ao lado do rio era um amor muito, muito maior do que aquele que ela perdeu. Era o amor fraterno. O amor por aqueles que ninguém se lembra. Só o Velho Chico.

No seu voto de pobreza, Nala se permitiu uma mochila. Nela seus maiores tesouros. Uma calça jeans velha, decorada com desenhos para brincar com as crianças internadas. Alguns vestidos longos, com babados, detalhes de filó e cianinha. Dois ou três discos de Caetano Veloso. Quatro livros sagrados: a Bíblia, o Tao, o I Ching e o Bagava Guita.

Todo o resto que tinha, ela deu.

Gosto de imaginar que ela levou pelo menos um livro de Cecília Meireles.

Faria todo sentido, mas ela não o fez. Não podia. “Cecília Meireles - Obras Completas” era o livro favorito e inseparável de Amarílis. Cecília traduzia a sua alma, e ela trazia grifado em suas páginas todos os poemas onde ela lá estava.

Posso estar enganada, mas acho que esta foi a herança de vovó mais disputada. Eu gostaria de tê-la recebido. Mas tudo bem. Paulo me deu o meu quando fiz 15 anos. Assim como no dela, estão grifados em suas páginas todos os poemas onde minha alma lá está.

Chegando na Barra, Nala escolheu morar em uma casa simples, de porta e janela. Dormia no chão em uma esteira de bambu. Suas coisas ficavam organizadas em estantes improvisadas com pedaços de madeira e tijolos. Não tinha eletricidade, por puro princípio. Se as famílias que ela cuidava não tinham, por que ela deveria ter?

Minha mãe é assim, ela precisa de muito pouco. Acho que as coisas a aprisionam neste mundo e ela sabe que a qualquer hora terá que se transformar de novo e retornar ao local mágico de onde veio.

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