• juliana rabelo

Capítulo 2: Elas e o rio

AMARILIS. Na luta contra os holandeses, o colono português, o negro e o indígena recuaram para o interior, para o sertão.  Não deve ter sido fácil para os portugueses que já estavam em Pernambuco. Os negros estão acostumados ao calor infernal e ao sol que frita de forma inclemente a pele. Eles sabem o que é passar não horas, mas dias de sede. Eles sabem que fome, fome de verdade, não é quando você precisa ferver ratos para comer. Nesta fase você ainda é rico. Fome é quando você faz uma sopa com tiras das solas das próprias sandálias, porque é a única coisa capaz de disfarçar o fato de que você esta apenas bebendo água suja. Toda matéria orgânica pode ser considerada nutritiva. Os índios, verdadeiros senhores do Brasil, rapidamente conseguiam fugir pela mata, fosse ela verde, vistosa e úmida como a mata atlântica, ou branca, desmembrada e seca como o sertão. Mas os portugueses não sabiam de nada disso. Estavam acostumados às terras de Portugal, com seu frescor e sua riqueza, ainda que a riqueza fosse apenas a facilidade com que é possível fazer vingar uma plantação para consumo próprio ou um pequeno animal para o leite e o abate. Mas eles tinham sobrevivido ao frio, isso é verdade. Então havia força em seus corpos. E assim se fizeram os primeiros sertanejos. Com suor, calor, sangue, força e sede. Uma sede além do desejo por água. Uma sede pela vida, por deixar a sua marca nela, por fazê-la valer a pena, mesmo nas situações mais adversas. No sertão a vida nunca é fácil. Seja você um calango, um ser humano ou um pequeno jenipapo que conseguiu a muito custo brotar no chão. Mas acima de tudo, para sobreviver ao sertão e transformá-lo em parte da sua alma, é preciso ter fé. Fé de que a chuva cairá na hora certa, quando a morte estiver espiando à espreita, nem que para isso seja preciso roubar um santo específico do altar. O santo só era devolvido depois que começasse a chover. Nesse meio do caminho, até que exercesse um dos seus milagres, permanecia de cabeça para baixo, de castigo. Pobre São Pedro, sobraram poucas imagens intactas pelas capelas sertanejas. Assim nasceu o reinado dos Alves.


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