VIVER, MORRER, RENASCER
- juliana rabelo
- 10 de mai.
- 8 min de leitura
UM METODO INSPIRADO NO SAGRADO FEMININO: ARTE, ESPIRITUALIDADE E FILOSOFIA
A CHEGADA DA SOMBRA
Eu achava que seria impossível superar 2021. Eu achava que aquele seria o meu fundo: o ano em que perdi a minha mãe em meio ao colapso de oxigênio, de leitos, de ar. Um luto atravessado pela impotência coletiva. Minha dor se soma à dor de milhares de brasileiros e caminha comigo todos os dias — às vezes como saudade, às vezes como revolta, quase sempre como uma ausência que tem peso.
O luto tirou de mim forças que eu não sabia que podiam ser tiradas. E no lugar colocou uma angústia que eu não conhecia. Espero que você nunca tenha perdido precocemente alguém que amava. Mas se isso aconteceu, nós somos irmãos — e você sabe. Existe uma parte do mundo que muda para sempre. Existe uma inocência que não volta.
Ao mesmo tempo, do outro lado da dor, nasceu em mim uma urgência enorme: a urgência de viver a vida que eu queria viver, porque a finitude ficou inevitável. Eu não conseguia parar de pensar:
“Vai acabar uma hora ou outra. E quando isso acontecer… onde você vai estar? Onde você queria estar — ou onde colocaram você?”
Essa pergunta foi semente e foi faca. Porque ela corta as desculpas elegantes que a gente usa para continuar vivendo no provisório.
Foi com essa pergunta no peito que eu cheguei à decisão de terminar um casamento de 22 anos. Havia sentimento. Mas a minha criança interior não conseguia ter paz. Foi extremamente doloroso. Mas, para mim, era necessário. Porque existe um tipo de dor que é queda — e existe um tipo de dor que é verdade. E quando a verdade chega, a gente descobre que muita coisa que chamava de abraço era, na prática, algema.
O luto pelo meu amor se uniu ao luto da minha mãe, e eu fiquei sem chão. A escuridão era a única coisa palpável junto de mim.
Mas eu não sabia que existia um outro tipo de noite que iria me alcançar três anos depois: aquela em que a presença ao seu lado não é ocupada nem por pessoas, nem por ideias, nem por propósitos. Só um silêncio pesado. E, dentro dele, a sensação de fracasso e inadequação.
Eu chorava quase todas as noites. Me sentia perdida, abandonada por todos, sem saber para onde ir. Me sentia solta no mundo, como alguém que não pertence a nada e a lugar algum — como alguém que lentamente desaparece.
Eu tenho três filhos. É simples: eu precisava sair desse local. Eu precisava voltar a pulsar e aprender a me sustentar.
Não uma sustentação performática — uma sustentação real: daquelas que seguram você em dias comuns e, ao mesmo tempo, mantêm seus pés firmes o suficiente para andar com sentido.
Mas eu não me iludia. Sentido não é solução. Sentido não apaga a dor nem devolve o que foi perdido. Ele só impede que o caos vire a única linguagem possível.
E como conseguir base quando se está no limiar?
Pisando seu chão para continuar a andar, nem que para isso seja preciso ajudar seus pés e colocar uma mão no chão. Vou te explicar.
Imagine-se na imagem acima. Não como alguém que se segura para não cair. Mas como um corredor que se prepara para o momento da largada. Seus três pontos de apoio formando um triângulo no chão. Sua outra mão no coração, sentindo as batidas aceleradas. Sua cabeça erguida, os olhos fixos no horizonte. Seus pés prontos para começar a correr. Suas pernas tremem de expectativa, de ansiedade, de dor. Mas você está estável. Você não cai. Você acredita.
O triângulo não é acaso. Ele cria equilíbrio, distribui peso. Se um lado cede, os outros dois ainda seguram — por algum tempo — até você recompor. Não é rigidez. É arquitetura.
Essa sustentação é alcançada quando o indivíduo se abre para desenvolver três bases de sustentação do seu eu interior: clareza quando a vida tenta virar ruído; confiança para sustentar o invisível; emoção consciente para sentir sem se afogar.
Quando esses três pontos se conectam, algo muda: você para de implorar chão no outro; para de se abandonar quando o mundo se afasta; para de se perder quando o silêncio chega. Você pode até estar sozinha — mas não está vazia. Há uma casa dentro de você.
Não se exija demais. Não é sobre “ter os três pilares perfeitos”. É sobre tê-los disponíveis. Porque a sustentação que você espera que venha de fora, em algum momento, precisa também ser construída por você.
Minha psicóloga me deu uma imagem que me organizou: um triângulo de sustentação. E com ele eu comecei a enxergar alguma luz. Porque eu soube aonde encontrar esses três pilares.
CLAREZA QUANDO A VIDA TENTA VIRAR RUÍDO
A FILOSOFIA COMO ALIADA
Quando a vida desaba, a primeira tentação é procurar uma explicação que anestesie. A segunda é procurar uma solução que acelere. Mas existe uma terceira via — mais lenta, mais honesta: procurar sentido sem fabricar mentira.
É aqui que a filosofia entra.
Eu não estou falando de filosofia como teoria distante, nem como enfeite intelectual. Eu estou falando de filosofia como aliada de travessia: um modo de sustentar perguntas grandes sem se quebrar; um modo de olhar para a própria dor com rigor, sem transformá-la em espetáculo; um modo de escolher um caminho que não dependa de aprovação para existir.
A filosofia, aqui, não serve para justificar sofrimento. Serve para impedir que ele vire destino.
Não é salvação — é compromisso com o real.
No fundo, ela começa sempre do mesmo lugar:
O que é real em mim?
Essa pergunta, quando feita com coragem, vira passagem. Porque ela separa fato de medo. E devolve algo mais útil do que respostas rápidas: discernimento.
Foi por isso que a Jornada do Herói me serviu como estrutura. Não como fórmula de roteiro, mas como mapa humano. A Jornada diz, com outras palavras, algo que quase todo coração conhece:
existe um ponto em que você percebe que não pode mais viver como antes.Você é chamada. Você resiste. Você atravessa. Você cai. Você aprende. Você volta diferente.
E esse “voltar diferente” não é virar alguém perfeito. É virar alguém mais inteiro.
O que a Jornada faz, filosoficamente, é devolver responsabilidade sem crueldade. Ela mostra que sofrimento não é “merecimento”. Mas pode virar matéria de transformação quando você para de fugir de si — e começa a escolher postura. Um passo por vez.
CONFIANÇA PARA SUSTENTAR O INVISÍVEL
GUARDIÕES COMO ARQUÉTIPOS DE TRAVESSIA
Só clareza não sustenta tudo. Eu precisava de uma confiança possível, mesmo quando eu não tinha prova. Uma confiança que não fosse espetáculo — fosse base.
Foi aí que os Guardiões entraram como linguagem viva no meu processo de renascimento.
Na prática, eles aparecem como aquilo que a filosofia sempre tentou nomear, mas que a vida ensina com o corpo:
· limite,
· escolha,
· consequência,
· dignidade,
· verdade,
· desejo,
· passagem.
Se a Jornada do Herói é a estrada, os Guardiões são as forças que operam nos pontos mais críticos dessa estrada. A Jornada sozinha pode virar um ideal distante (“seja corajosa”, “supere”, “transcenda”). E os Guardiões sozinhos, sem estrutura, podem virar apenas um mosaico de símbolos.
Quando os dois se encontram, acontece algo mais concreto: a Jornada dá sequência; os Guardiões dão função.A Jornada diz “onde você está”; o Guardião diz “o que precisa nascer em você aqui”.
E aqui eu preciso dizer com precisão — por respeito e por limite:
Este livro se inspira em forças de matriz afro-brasileira. Mas não pretende ensinar fundamento, substituir terreiro, nem oferecer atalho espiritual.
Aqui, Exus e Pombas Giras aparecem como arquétipos de travessia: chaves simbólicas para funções internas essenciais. Para muita gente, eles são experiência sagrada; para outras, linguagem psíquica. Neste livro, eles são caminho de postura.
Exu, como arquétipo, trabalha o lugar da vida em que você precisa decidir.Ele é o guardião do limiar: onde não existe mais neutralidade.Exu não negocia com autoengano porque autoengano não é paz — é adiamento.
No mapa que eu percorri (e que este livro organiza), Exu apareceu onde eu precisei:
· dizer a verdade,
· cortar um pacto que me diminuía,
· assumir autoria,
· atravessar uma porta,
· encarar consequência.
Ele não é força para atacar o outro. É força para não se trair.
Pomba Gira, como arquétipo, trabalha o lugar da vida em que você precisa se recompor. Ela é guardiã do valor que não depende de permissão. Ela cuida da ferida onde você aprendeu a se diminuir para caber.
No mapa do livro, Pomba Gira aparece onde você precisa:
· acolher vergonha sem se condenar,
· recuperar autoestima sem endurecer,
· separar desejo de culpa,
· desmontar o medo de rejeição,
· voltar para si com dignidade.
Ela não é força para manipular o mundo. É força para se amar sem humilhação.
EMOÇÃO CONSCIENTE PARA SENTIR SEM SE AFOGAR
A ARTE COMO CAMINHO
Há coisas que a mente entende antes do coração. E há coisas que o coração sente antes da mente conseguir nomear. Entre uma coisa e outra existe um espaço — e é nesse espaço que a arte trabalha.
Eu não escolhi a pintura como hobby. Eu escolhi como método de travessia. Porque existe um tipo de leitura que passa pelos olhos e vai embora; e existe um tipo de leitura que desce para o corpo e vira chão.
Pintar é isso: fazer o invisível pousar.
Porque pintar exige uma sequência de pequenos atos: escolher uma cor, fazer um traço, voltar, ajustar, esperar. Enquanto você faz isso, o seu sistema interno muda de estado: a respiração desacelera, o olhar se fixa, o corpo se organiza.
Você sente — não como desespero, mas como presença.
O inconsciente não fala em argumentos. Ele fala em imagem, sensação, repetição, sonho, metáfora. Por isso um símbolo bem escolhido atravessa você sem pedir licença — ele vai direto ao ponto onde você ainda não tem linguagem.
Cada desenho deste clube foi criado para funcionar como um portal simbólico. Os Guardiões aparecem como forças simbólicas de travessia: passagem, limite, proteção, verdade que corta, dignidade que se recompõe, movimento que não se humilha.
Quando você pinta um card, você faz um pacto silencioso com aquela função interna — e com o sentimento que ela representa na sua jornada. Você não está apenas colorindo uma imagem. Você está praticando uma forma simples e profunda de alinhamento: atenção + símbolo + gesto.
O Guardião não resolve sua vida. Ele te devolve postura.
Postura não é pintar “bonito”. É pintar presente.
Pinte devagar. Pinte com respiração.Você não pinta para virar outra pessoa. Não pinta como ritual obrigatório, nem como “cura garantida”.
Você pinta como retorno íntimo: para voltar a ser você.
E VOCÊ? POR QUE ESSE CLUBE?
Eu não desenvolvi esse CLUBE para explicar a dor. Eu O FIZ para atravessá-la com eixo.
O que você tem aqui não é um manual de salvação, nem um atalho espiritual. É um método íntimo de presença: doze passos para alinhar vontade e verdade sem se abandonar no caminho.
Você não controla tudo o que te acontece. Mas pode escolher a postura com que atravessa.E essa postura muda o seu destino, porque muda a sua coerência.
Se este livro fizer uma coisa por você, eu espero que seja esta:te devolver para o lugar onde a sua palavra tem peso e a sua vida tem caminho.
AGORA, VOLTE PARA O MÉTODO
Se você leu até aqui, você já tem o essencial:
· você entende por que este mapa existe;
· você reconhece os três pilares que sustentam a solitude;
· você sabe que travessia não é teoria — é prática.
Agora, a pergunta é simples:
Você quer começar com presença?
Se você chegou até aqui, você já tem chão suficiente. Já nomeou o que o trouxe. Já pronunciou, mesmo que em silêncio, o pedido de ajuda que rompeu o limiar.
O caminho, a partir daqui, pede outro movimento: não mais apenas o reconhecimento da dor ou do desejo, mas a disposição de atravessar o que antes só se suportava.
Você não está sozinha.
Mas o passo seguinte será seu, e você tem Um encontro inadiável.



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